Recentemente estive reunido com a Natalia Castan e o Jair Marcatti para batermos um papo sobre a sua incrível “Escola de Repertório”. Uma iniciativa deles que me provocou algumas reflexões que gostaria de deixar registradas aqui.
No meu entendimento o “Repertório” é atualmente o que as “Soft Skills” foram num passado recente. Um capítulo seguinte pra essa buzz word que tomou o meio acadêmico nos últimos EXATOS 3 ANOS. Talvez uma gourmetização e um facelift do conceito. Talvez não.
Na era das inteligências artificiais generativas o “Repertorio” é mais importante do que jamais foi antes. E muito mais importante que qualquer Soft Skill. Talvez não.
Há pouco seu “Repertório” era o verniz da sua personalidade. Um buster de superego.
Um conjunto de informações que te permitia ganhar empatia numa conversa de elevador ou em uma entrevista de emprego.
Uma compilação de conhecimentos que te permitia acessar a roda de pais de alunos na festa junina da escola dos seus filhos. Um background, apenas seu, que te distinguia dos demais para uma determinada audiência e poderia abrir portas no mercado de trabalho e nos negócios.
Uma camada da sua psique ainda pouco estudada e promovida.
Todos nós temos um entendimento do que é “Repertório” mas ele parecia se desenvolver aleatoriamente e sem nenhum rumo dentro de cada um de nós.
Eu gosto de filmes policiais coreanos e veículos elétricos e punk rock, quadrinho, marketing digital e de citações de Nelson Rodrigues.
Repertório e interesse são gêmeos univitelinos.
E daí em meados de 2022 surgiu a A.I. e a engenharia de prompts ganhou o mundo.
E nesse momento o “Repertório” tornou-se mais importante que as soft skills nessa dinâmica com esse novo algoritmo que tomou o mundo na figura de uma quase persona.
Um interlocutor que te responde organicamente com base em todo o conhecimento humano acumulado na internet.
Segundo o BARD “de acordo com um estudo realizado pela IDC, o tamanho da Internet hoje é de cerca de 1,7 zettabytes (ZB). Isso equivale a cerca de 1,7 trilhão de gigabytes (GB) ou 170 petabytes (PB) por dia. A Internet está crescendo a um ritmo de cerca de 25% ao ano, e esse ritmo deve continuar nos próximos anos.”
E é esse oceano de informação que o BARD ou o ChatGPT4 consume pra me trazer uma resposta como essa acima.
E construir um prompt ou uma query é uma combinação de “linguagem de programação” – porque você primeiramente precisa entender a ordem para submeter os dados de maneira a ser compreendido por um algoritmo – e de Repertório. Porquê?
Por que uma inteligência artificial generativa consegue entender todos os comandos e referências que você submeter a ela. Você não sabe o que é estilo Pós-Impressionita ou Modernista, Arquitetura Vitoriana ou Romântica, Dadaísmo, Cubismo, Futurismo, Literatura Beatnik, Punk, Sertanejo, Funk, Abertura de Lentes, e você talvez não tenha essas referências no seu repertório. Plano Americano, Zoom ou Plano Aberto.
E certamente a falta dessa reunião de dados irá impactar a qualidade do seu pedido. Porque talvez te faltem palavras para transcrever uma ideia ou uma referência que esteja na sua cabeça.
E a falta de palavras é a carência de acervo.
E isso é repertório em um nível acadêmico do conceito. Digo mais… a A.I Generativa conhece autores, artistas gráficos e possui um repertório de 1,7 ZB que você pode acessar via prompt. Um texto no estilo de Saramago, ou no estilo de Luiz Fernando Veríssimo.
Mas isso é uma questão prática sobre o repertório.
Nós temos de maneira geral uma compreensão que o repertório é cultura em um nível aristocrático e o próprio dicionário nos leva a uma compreensão do termo como sendo algo ligado a uma cultura classista.

Música, teatro, cinema francês, cultura fina.
Eu gosto da etimologia “inventário”.
Porque cabe nela repertórios diversos. Um colaborador sem ensino médio, mas que possui o maior repertório sobre um time de futebol, pode construir mais pontes com um CEO fanático por bola que um Gerente de Marketing avesso ao tema.
Um CEO desempregado dirigindo um Uber vai começar e terminar uma corrida e sendo mal avaliado pela falta de assunto. “Era um motorista sorumbático”.
E nesse sentido uma Escola de Repertório faz todo o sentido atualmente para ocupar o frenesi do termo da moda “soft skill” nos últimos anos.

A maquina é completamente alheia as suas Soft Skills. Mas acessar a Inteligência Artifical pode dizer muito sobre suas Soft Skills. Listando algumas… sua capacidade de Resolução de problemas (talvez esse artigo seja sobre isso); Trabalho em equipe (talvez esse artigo seja sobre isso); Liderança ( talvez esse artigo seja sobre isso); Organização ( talvez esse artigo seja sobre isso); Proatividade (talvez esse artigo seja sobre isso); Adaptabilidade (talvez esse artigo seja sobre isso); Criatividade (talvez esse artigo seja sobre isso); Persuasão (talvez esse artigo seja sobre isso) ou Comunicação (talvez esse artigo seja sobre isso). Mas talvez tudo isso faça parte tenha correlação, ou seja, consequência desse miasma que a Natalia chama de Repertório.
Existe um Repertório mainstream?
Certamente que sim (e confesso que eu não me enquadro em nele).
“Vinhos, futebol, corrida de rua, cultura pop, léxico startupeiro e up date em noticias sobre ups and downs de empresas, viagens, livros e linguagem coach” poderão te ajudar a permanecer em um almoço em um restaurante nos Jardins com executivos de alto escalão de uma empresa qualquer.
Outros “Repertórios” irão te permitir transitar em outros grupos demográficos, sociais ou comportamentais com maior ou menor aderência dessas pessoas.
Mas não irão te servir de muita coisa se seu interlocutor for de um segmento sócio demográfico diferente do seu target padrão.
Se um dia você encontrar o Kondzila, Natália Pasternak, Boninho ou o Guga num elevador e tiver que fazer um pitch de negócios pra eles, provavelmente você precise acessar um repertório novo.
Por isso ter uma escola que desenhe percursos de repertório (que eu acho um tema muito mais excitante que Soft Skills, me permitam a manifestação de uma opinião) me parece muito promissora. E penso que a construção de “Repertório” com foco em trajetórias e objetivos específicos de carreiras deveria ser um tema como as “Soft Skills” vem sendo nos últimos 48 meses. Para saber mais sobre o tema busque Escola de Repertório no Google. Você vai se surpreender com as possibilidades e, no minimo, aumentar seu acervo.